Quarentena: Sétimo dia!

                                                               


                                                                 

Sem pão ou café, esses dias de quarentena estão ficando mais difíceis. Ainda tenho um pouco de arroz, carne e uma cartela de ovo. Tentei comprar o que eu precisaria para o mês antes mesmo de estourar a noticia. A orientação mundial estava sendo para não sair de casa, lavar as Maos com agua e sabonete liquido e alcool em gel. Mas sair de casa, ficar de quarentena, era o mais recomendado e ficar com a família. Liguei a televisão, na reportagem explicava que o vírus havia se originado na china e se espalhara pelo mundo, chegando ao Brasil. Era transmissível no ar por alguém doente. ou tossindo e espirrando. Na china e, principalmente na Italia, estão ocorrendo o maior numero de mortes no mundo. Desliguei a tv e vi algumas noticias pela internet, com videos e audios de gente que convivia com as áreas. Mas fechei o aplicativo quando vi gente afirmando que o caos estava começando.  Peguei meu celular e liguei para a minha mãe, que me atendeu ja comentando sobre o virus.

                                        - loucura isso, né, meu filho? todo mundo surtando! E você, ta faltando alguma coisa? ta tudo bem?
Coloquei o celular no viva a voz enquanto eu me trocava para ir ao mercado.
                                        - falta só um alcool em gel mas estou lavando as mãos toda hora que posso_menti a ultima parte_mas pensei em passar ai depois, pra ver como vocês estão. posso ir?
                                        - mas voce ja esta na rua?_ela mudou seu tom_nao pode sair, meu filho, ta perigoso.

                                       -Ainda não sai, mãe. E eu to bem, queria so passar ai pra ver como vocês estão. Morando sozinho eu fico mais preocupado.
                                       -Filho, eu acho melhor não vim, estou isolando seu pai de tudo a nossa volta. estou muito preocupado com ele. E depois  da cirurgia e dos dois avc's... imagina se ele interna? ele não vai resistir por causa da válvula de metal_ficou muda uns segundos_nao posso arriscar, meu filho. Voce entende, certo?
Depois de me trocar, tirei o celular do viva a voz.
                                     -Entendi_deixei nao tranparecer a triateza em minha voz_melhor esperar mais um pouco, então_deixei a tristeza na voz.
                                    
                                     -Que situação esse virus, não se pode abraçar quem a gente ama! E outra, você também esta entre as pessoas de risco, tem bronquite, esqueceu? tem que ficar em casa de qualquer maneira.

                                    -verdade!
                                    - se tiver gripado, ja toma remedio, vitamina ou que seja pra não piorar. E não pode chegar perto de ninguém, ta?_parou uns segundos_isso está matando muita gente, filho. seus irmão estao nos seus quartos e seu pai no dele_sua voz falhou_eu estou com muito medo!

                                   -tudo bem, irei esperar melhorarem as coisas pra visitar vocês.

                                  -melhor. E nao sai de casa. Beijo, se cuida. Eu te amo!
                                  -Te amo..
E desligamos depois de nos despedirmos. Fiquei pensativo depois da ligação, minha mae desde criança cuidando de todos da família. Se não fosse por ela, nem sei o que seria da gente. sinto falta disse as vezes, de se sentir cuidado por ela. Peguei minha carteira e fui comprar algumas coisas que faltavam.

Descendo as escadas do apartamento pude ouvir alguns barulhos de tv's ligadas. Na rua, o bairro estava mais deserto que o normal, apenas com a padaria, o mercadinho e alguns bêbados sentados na calçada.

                               -Voce tem um saco de café de quinhentas gramas?_perguntei.
O atendente disse que sim e foi pegar, me encostei na grade do mercadinho. Estava lacrada para evitar aglomeração. Nessa hora duas crianças e um adolescente chegaram correndo e só conseguiram parar porque se penduraram na grade.
                              -Moço, voce tem alcool em gel ai? é pra minha mãe, ela não esta muito bem não! tu tem?_disse o do meio, baixinho, careta e cara preta.

                             -tenho nao, desculpa_grudou na grade.
                             -Obrigado, Tio!
E eles correram para outra direção. Nessa hora encostou-se um velho, regata vermelha, folgada e bermuda. 
                            -me ve uma caixa de cerveja ai, meu amigo!_encostou-se na grade e me olhou_esse vírus ta matando muita gente, ne meu filho? toma cuidado. 

                           -ta aqui, senhor.
                           -obrigado_e foi embora.
                          -pra voce era o café, certo? vou la pegar_e correu pra dentro.
Olhei um pouco para dentro da loja, olhando bem atentamente.

                        -realmente acabou o alcool?_perguntei me afastando da grade.
                        -sim.
                        -o meu ta quase acabando_menti novamente. parei um segundo_sim, ta acabando, tenho que comprar outro.
                       -verdade, da pra brincar não. Eu ja fiz o pedido e eles devem chegar a qualquer momento_ele disse olhando para a rua_ainda bem que me preparei pra isso, depois dessas noticias e essas mortes, eu fiz um estoque de alcoo e de outras coisas para a minha família. melhor procurar um mesmo, ta foda.
Peguei o cafe e fui para a padaria comprar o pão.


A padaria estava com poucas pessoas e sem as cadeiras de dentro, estavam apenas os funcionários. paguei a atendente e sai na rua quando ouvi um grito.  uma mulher atravessava a rua a gritar com um carro que saiu acelerando.  Segurava a mao de uma criança que aparentava ter uns dez anos de idade.

                                 -Maluco, nao ve que tem criança atravessando não? filho da puta_e levantou a mão grande que tinha e sacudiu, realçando sua cor preta.

A atendente da padaria saiu correndo de dentro em direção a criança.
                                  -voce ta bem, Felipe?_olhou para a moça e seu cachorro_tava procurando meu irmão, e como to sozinha aqui não consegui prestar atenção nele.
                                 -tudo bem, minha filha_deu um sorriso velho e cheio de dentes. olhou para o seu cachorro_hilda, para ja com isso. Desculpa moço, ela fica cheirando todo mundo.

                                 -Deve ta procurando quem é que ta com esse vírus apenas pelo cheiro._elas riram.
                                 -sim, isso é sério. Retiramos as mesas aqui da padaria para evitar aglomeração.
                                 -Para pessoa só comprar e sair_completou a senhora com a cachorra_tem que ficar em casa, sem botar o pé pra fora. Quanto mais andar de carro._pegou um saco de cigarro_confesso que tenho que ficar também, ja que tenho a idade de risco, mas esse cachorro so fica latindo. Me deixando mais louca ainda_acendeu um cigarro.

De repente um carro preto estacionou em nossa frente e uma mulher usando mascara saiu de dentro dele. vi a senhora do cachorro cutucando a atendente.
                               -olha ai, ó, dizem que a filha dela ja esta contaminada.
                              -sera?_perguntei.
                              - sim, porque parece que a filha dela voltou de uma viagem fora recente por ai. isso que eu não entendo, em plena crise tem gente viajando ainda. Tem que prender esse pessoal, tudo espalhando a doença.
                              -verdade_disse a atendente.

Nessa hora a mocça retornou, abriu o carro e retirou uma caixa de papelão.
                             -olha lá, certeza que é alcool em gel. E muito pelo visto. Enquanto a gente aqui fica sem_me olhou_ já comprou o seu? sua mae comprou?
                              -o meu ta acabando, vou comprar amanha_outra mentira_moro sozinho.     
                              -então só lava bem as mãos com sabonete ate comprar. vai ficar na sua casa?
                              -passarei em casa sozinho. Minha família está isolada por causa do meu pai.

Nos despedimos e voltei para a casa com o café e o pão, menos o alcool que eu menti que tinha. você também ta no grupo de risco, lembrei da minha mãe me falando. Lavei minhas mãos com sabonete e liguei a televisão, o jornal estava no fim e o apresentador dava um último recado.

                              - Passe alcool em gel nas mãos, não se esqueçam_disse, sério.
                              -merda_eu disse, desesperado, e desliguei.






































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